Todos os outros muros

Acordei lá no meu quarto do apê da Cayowaá, saí, abri a porta da sala e encontrei em cima do sofá o jornal do dia aberto na página com a lista dos aprovados na primeira fase do vestibular, meu nome circulado de caneta azul e três notas de cinquenta reais ao lado. Uma pra mim e as outras duas pros dois irmãos. A exigência era clara – gaste como quiser, não poupe um centavo. Ganhar cinquentão em pleno 1999, e ainda podendo esbanjar, era um acontecimento extraordinário em nossas vidas.

Eles disseram que era uma vitória de todos, não só minha. Não entendi absolutamente nada, evidentemente ressentida (puta) por não receber a bolada toda.

Dias atrás, estamos em 2017, bateu um insight sobre aquele gesto quando participava, entre amigos, de um debate sobre um tema do noticiário brasileiro. Lembrei daquele dia porque talvez tenha sido justamente ali que tive meu primeiro contato com noções de grupo e seus desdobramentos.

Ao envolverem todos na conquista indiretamente disseram que dentro do grupo foram criadas condições para que algo positivo acontecesse.

Quando fizeram com que todos se sentissem responsáveis e pertencentes a um projeto em comum despertaram colaboração ao invés de competição – ideia conhecida e praticada nos meios corporativos, em técnicas de grupo com fins específicos, mas raramente desenvolvida nas relações humanas ordinárias diárias.

Semana passada publicaram uma frase do Banksy nas redes – “A wall is a very big weapon”. Muros de concreto que pretendem afastar pessoas dos nossos territórios reais assim como muros virtuais que levantamos diariamente com atitudes que não envolvem, não integram, desconectam e intuitivamente afastam, por vezes criando abismos de difícil reparação.

Alheias e dissociadas de um processo, pessoas são movidas por uma energia totalmente diferente da energia existente entre pessoas integradas e valorizadas dentro de um contexto.

Fui entender há pouco que o dia do jornal me ensinou técnicas sofisticadas de RH corporativo e coaching. Se empresas investem tanto nessa área para impactar nos lucros, entendem que ter pessoas que se sentem partes importantes de um conjunto, e portanto colaboram ao invés de competir, é melhor pros negócios.

O insight de 2017 clareou a visão quanto à forma como agimos dentro de um grupo qualquer. Num rotineiro processo de discussão sobre política é possível enxergar os impactos de uma abordagem que integra a todos e de uma abordagem que expele. Uma floresce, a outra desvirtua. Uma está a serviço do projeto comum, a outra, do ego.

Qualquer debate político tem (ou deveria ter) como objetivo alcançarmos juntos novos caminhos e projetos benéficos ao todo, através do choque de ideias necessária e saudavelmente divergentes dentro do grupo, onde pudéssemos racionalmente questionar e rever nossas próprias visões quando colocadas em perspectiva.

Quando pessoas sentem-se incluídas no debate e sabem que suas ideias são respeitadas e ouvidas, que sua presença contribui para o processo, ímpetos iniciais de competição (comumente carregados de raiva) são transformados em esforço para criar algo novo em cima de acertos e erros, com foco num resultado que beneficia a todos. A disputa vira colaboração e aí que a magia acontece – evoluímos.

Mas não se trata de mágica, neutralizar a energia de certos comportamentos e transformá-la em energia criadora é pura reação química.

No balanço

Consegui contar 7 cidades, 6 países e ao menos 20 casas diferentes nos últimos 15 meses.

Tínhamos basicamente o mesmo propósito em todos os lugares em que passávamos – viver o momento, conhecer coisas e aguardar pela cidadania italiana. Era a hora de experimentar tudo o que em condições usuais dificilmente encontraríamos tempo, motivação, oportunidade.

Fazer cursos de verão e de curta duração (de política a empoderamento pessoal), viver como um local (menos monumentos, mais mercadinho de bairro), sair falando o idioma entoando o acento “pertinente” de cada lugar, pegar frilas de tradução e voluntariado com refugiados (afinal we are millennials), conhecer as iguarias locais (mucho gusto, angulas e tinto de verano), alugar apê pelo mês ou um quarto na casa de pessoas desconhecidas com quem dividíamos a máquina de lavar, banheiro, varal e jogos de tabuleiro.

Fazer crossfit e correr nos parques no meio da tarde, comprar vinho todas as noites, reencontrar e reforçar laços com antigos amigos que migraram antes da gente. Ficar íntimo da neve, da angústia, da depressão por ausência solar, do chèvre, do tiramissu, do molho piri piri. Assistir e acompanhar séries de domingo a domingo, aprender a costurar e a meditar.

Alguns aprendizados, a compreensão do que são sociedades mais avançadas e a desmistificação de que essas cidades são melhores que a minha. A clareza de que nós, brasileiros, temos sim uns bons degraus de déficit na evolução social (os europeus têm mais tempo de estrada como vantagem) – realmente nos falta tirar o umbigo do foco nos temas que concernem o interesse coletivo, o respeito e o gosto pela pluralidade e muita interpretação de texto.

Veio a necessidade de termos menos coisas para poder deslocar com mais facilidade. Bateu saudade do conforto da nossa casa em São Paulo, nossa intimidade, nossa rotina, nosso círculo protetor, nossa higiene, nosso colchão (old millennials têm ciático inflamado). Saudade arrebatadora de tomar banho descalça e em alguns momentos de morar num apartamento em que a cozinha, o quarto e a sala não disputavam o mesmo ambiente.

Por 15 meses, estabelecer era apenas um desejo que sabíamos estar longe e dependente de burocracias intercontinentais pouco transparentes e com muitos imbróglios ítalo brasileiros (desespero). As conexões e responsabilidades eram pontuais – não havia a mínima necessidade de envolvimento profundo com as coisas tampouco grandes planejamentos pois dali algumas semanas sempre íamos embora.

É setembro de 2016, cidadania basicamente em mãos, oferta de trabalho duradouro na capital espanhola, hora de viver o que damos o nome de “realidade”: rotina diária + planos de vida em Madri. Me encontro tentando entender o que significa criar raízes numa nova cidade – o que claramente desacostumei a fazer.

Ter o percurso certo de todas as manhãs, saber qual o dia da feira, ter as pessoas para as quais ligar quando tiver uma epifania ou simplesmente quando precisar tomar um tinto de verano no fim do dia, pedir talão de cheque para a gerente, ter um armário com mais de 3 calças jeans, ter um ferro de passar roupa (e passar roupa), achar normal assinar um contrato de aluguel com prazo indeterminado com cláusula prevendo multa em caso de descontinuação em menos de 24 meses.

Saber onde Jorge Drexler pedala todas as manhãs, conhecer e escrever neste blog sobre os hábitos e as idiossincrasias dos madrileños (se são do tipo que reclama da diminuição da velocidade das vias da cidade, da Gran Via aberta aos domingos, da “indústria da multa”…), dizer “vamos dar um pulo lá no Juanito?” (me referindo ao meu boteco preferido) numa terça despretensiosa depois do serviço, ter histórias pra relembrar quando passar na frente do Juanito, não hesitar quanto ao número de beijos dar ao cumprimentar os amigos, saber qual a época da ponkan.

Eu não sou quem você acha que eu sou

Existe toda aquela famigerada conversa de repressão social, né. Você precisa se vestir de acordo, fazer tal faculdade, usar aliança de compromisso, casar antes dos 30, ter filhos, ser delicada, bem falada, temperada e falar baixo, bem baixo.

Eu ainda sofro de mais uma auto-repressão. É auto porque não lembro de ter sofrido dos meus pais qualquer pressão nesse sentido. É algo que eu mesma criei: tenho necessidade de ser cordial o tempo todo. Ser agradável custe o que custar. E internamente eu confundo isso com me cercear.

Meu pai explica o meu agito e sonambulismo noturno como uma dificuldade de me comunicar durante o dia. Sou uma engolidora de sapos e, segundo ele, vou liberando-os durante o sono quando o subconsciente então toma as rédeas da situação.

A maioria das pessoas cai na minha simulação. Tem quem fale que comigo é viável discutir assuntos como política, tem a falsa impressão que sou cordata, quando na verdade preciso fazer um esforço descomunal para ser construtiva diante de tanta ideia tenebrosa que ouço. Dizem por aí que sou delicada. Já ouvi tantos elogios. Poucos percebem a fraude. Tem quem percebe e gentilmente me poupa da crítica.

Hoje eu acordei com vontade de me desmascarar.

A minha cordialidade não é natural, eu faço um esforço absurdo para ser gostada. Tudo em detrimento do que eu realmente penso.

Ouço ideias das quais discordo mas concordo com a cabeça. Às vezes porque acho que é um caso perdido e muitas vezes porque não quero destoar do ambiente. Rio de piadas que não acho graça. Faço cara de interessada em assuntos que não me provocam qualquer entusiasmo. Me vigio o tempo todo para não mandar as pessoas para vários lugares insalubres quando falam de política. Não me posiciono (muitas vezes por dúvida mesmo) para não gerar debate, embate. Não falo o que penso mas comumente acho tudo diferente do que se fala. Tenho vontade de rodar a baiana e colocar o dedo na cara das pessoas. Quero discordar veementemente e não consigo. Tem gente que quero estapear. Bem forte. Às vezes isso transparece. Estouro com os mais próximos com frequência. Eles pagam o pato da minha deficiência. No sono, transbordo constantemente. Acordo exausta, de tanto brigar as brigas não brigadas na vida real.

A irmã mais nova fala tudo o que pensa. Sem dó. Torcem o nariz pra ela. Tem a antipatia de bastante gente. Mas dorme a noite toda.

Aos poucos vejo progresso. Terapia em grupo, individual, familiar, Lacan, Froid, meditação (leia-se os 10 passos do aplicativo Mindfulness), leituras, tentativas e mais tentativas de auto conhecimento. Tenho falado menos à noite, mas continuo acordando trêmula no meio da madrugada.

Ter esse blog também ajuda. Leio meus textos antigos e às vezes não me reconheço. Ele me ajudou a me entender e a me aceitar mais. Acreditava que o maior desafio atual seria encontrar um novo recomeço profissional, dominar idiomas, fazer novas amizades e me estabelecer. Mas como normalmente é tudo diferente do que eu imagino, o mundo tratou de jogar na minha cara que o maior desafio era eu tratar de me aceitar. Poderia estar roubando, matando, compartilhando memes no Facebook, mas estou aqui tentando me aceitar.

Talvez nesse processo todo eu me torne não tão agradável e meiga como talvez muitos gostam. Mas o gosto dessas pessoas por mim foi construído em cima de fraude. Faz-se mister desconstruí-la.

Juro que continuarei não estapeando pessoas, colocando o dedo na cara delas tampouco virar uma metralhadora de opinião. A única coisa que pretendo com tudo isso é ter uma boa noite inteira e serena de sono, com todos os sapos devidamente liberados a quem de direito, com respeito.

Eu, 34 anos, forasteira e nada resolvida

Não sei direito como isso aconteceu, mas cheguei aos 34.

Na minha última consulta ao pediatra, há dois anos, ele, que me viu nascer, perguntou sobre (eu, euzinha) ter filhos, que eu ainda tinha “uns anos” pela frente. Oi? “Mas eu só tenho trinta e dois, gente”. Ou seja, “então ainda devo ter mais uns 3 anos para não pensar sobre isso”.

Ultimamente tô tendo que pensar sobre isso. Devo ter, quiçá, mais um ano? Mas estou vivendo um turbilhão de coisas que não comporta outra variável, ainda mais da categoria “filho”. Tenho que me encontrar profissionalmente e pelo menos começar a construir algo bacana.

Com a cidadania italiana (a síria estamos deixando para depois), que deve ser uma realidade em poucos meses, já posso ter um trabalho. Mas o processo de entrar no mercado de trabalho demora, ainda mais nessa condição meio que de forasteira. Vamos supor, no fim do ano estou empregada, aí terei 35 e posso pensar em variáveis do tipo “descendentes”, isso se os óvulos-tudo assim permitirem.

Bom, aí começo um trabalho novo e já fico grávida? Estranho. Sempre idealizei um filho nascendo de um desastroso acidente fruto do amor entre duas pessoas seguras de si, não da urgência urgentíssima de se aproveitar bons óvulos + um frutífero momento profissional. .

De qualquer forma, quando tiver um filho eu quero estar com a minha família. Dois anos na Europa deve estar de bom tamanho, aí volto pra minha terra. Ou não, e se eu tiver um filho aqui e não quiser criá-lo entre as grades e as demasiadas seguranças de São Paulo, onde parquinho é privado e a criança fica no circuito condomínio-shopping center e, nos intervalos, na cadeirinha do carro? Ei, eu vou ter que ter um carro? Ainda existe a Elba ou o Lada Niva?

Talvez uma opção seja uma casinha de vila, mas e a segurança? Meu sonho é ficar igual a essas mães “destrambelhadas” francesas, que enfiam duas crianças na bici (às vezes, no patinete) e vão que vão charmosamente pedalando no meio da Rue de Rivoli, com todos os seus rebentos dependurados, cabelos ao vento, despenteadas e despreocupadas (e, evidente, com espaço suficiente para levar a imprescindível baguete debaixo do braço).

Mas aqui tem terrorismo. No Brasil não tem terrorismo, né? Muito mais seguro. Muitos Risos.

A verdade é que não tem nada que pague ter a família por perto, isso sim é essencial. Muito embora, tenho que dizer, o tempo no Skype/Whatsapp com eles (família) é tão mais prazeroso e cheio de interesse do que normalmente ao vivo no dia a dia, quando mal falamos um com o outro por acharmos que estar fisicamente por perto é o mesmo que estar conectado.

Tirando quando a minha mãe faz baciada de esfiha e todos os seis esperando ansiosamente a próxima fornada, com um vinho “reservado” chileno nas respectivas taças, falando abobrinhas, pérolas e deliciosas groselhas. Aí a conexão rola espontaneamente. Esfihas conectam pessoas.

Pensando bem, o mundo já está superpovoado, falta comida, crianças passam fome e são carentes de afeto. Por que haveria eu de colocar mais gente no mundo? Seria eu um ser especial que deveria espalhar meus maravilhosos genes por aí? Que gesto egoísta. Sempre achei que egoísmo era o problema do mundo.

Talvez adotar uma criança. Aí os problemas biológicos ficam resolvidos e desencano do meu fatídico prazo para engravidar. Uma minoria eu quero, assim posso fazer alguma justiça ou ao menos achar que estou fazendo alguma.

Se bem que legal mesmo seria uma pessoinha com o nosso jeito e olhar. Ou talvez não. Vai que puxa minhas idiossincrasias.

Sou individualista mas tô na moda

Sem muita resistência, justificamos nossas opções de vida com base naquilo que nos contaram milhões de vezes desde que nascemos: o homem é naturalmente um ser competitivo e individualista. E com essa noção sobre nós mesmos vamos construindo o nosso universo.

Alguns dirão que eu quero consertar o mundo, mas não é exatamente consertar, pois questionar, vou explicar.

Seguimos sem conseguir compreender a estupidez e a desonestidade do ser humano, as crueldades que ele é capaz de praticar, a falta de entendimento entre povos, mas nossos comportamentos diários não são muito distantes dos de guerrilha: o que não nos soa familiar é uma ameaça, o mercado de trabalho é predador, nos escritórios e empresas somos automaticamente concorrentes, as escolas são lugar de bullying (com incentivo – ou não repressão – daqueles que são responsáveis pela nossa educação), no trânsito somos animais ferozes (como não perder a noção com o cretino que não deu seta pra entrar na nossa frente, né mesmo?).

Contratos são leoninos, não buscamos o real equilíbrio nas relações diárias (precisamos sempre de um bom advogado para captar as vantagens ocultas inseridas pela outra parte ou para usar de sua habilidade para fazer o mesmo por nós), o nosso sempre tem que levar mais vantagem (se não somos chamados de tontos).

O ex-namorado é automaticamente convertido num ser odiado e a ex do atual é obviamente uma vaca. Subverter essa lógica é, por vezes, vista com espanto. É um caminho irreversível – temos que ser rivais de quem quer que aparentemente, nas nossas cabeças, possa querer concorrer com o que é “nosso”.

Quantas vezes fui questionada sobre uma possível rivalidade entre a minha irmã e eu. Juro. Acham mais normal haver rivalidade do que parceria, tanto que se espantam com a cumplicidade que existe entre a gente.

Nos defendemos de ameaças criadas por nós mesmos, travamos batalhas desnecessárias com família e amigos, achamos que os outros morrem de inveja do que temos, achamos que a menina nova do trabalho quer tirar o que é nosso. Julgamos todos e tudo, afinal, “somos humanos”.

Temos medo de olho gordo (sempre do outro), escondemos o jogo por medo de roubarem o nosso lugar, não nos misturamos porque vemos constantemente maldade nos outros (não a toa os que estão sempre na defensiva evitando tais situações são justamente os que frequentemente as vivenciam).

Nem numa conversa sobre política praticamos política. Imagina o que não seríamos capazes de fazer numa disputa por um pedaço de terra.

Visões dissonantes de mundo, que poderiam ser inspiradoras para uma mente sã, mais que depressa viram alvos de ataque, pois é difícil suportar que o outro, tão diferente da gente, também pode acrescentar.

Aprendemos nas escolas a falar idiomas e a história de todas as batalhas mundiais, nos ensinaram a achar o x e a balancear átomos de carbono, mas seguimos não sabendo como nos relacionar com o humano – simplesmente a parte mais importante do paranauê todo.

“Esqueceram” de nos contar que o ser humano é também um ser empático que, além de individualista, é também capaz de fazer coisas extraordinárias um pelo outro. Um ser que também colabora, que tem condições de compreender o outro, de se colocar no lugar dele, antes de jogar uma bomba nele.

Nos confortaram dizendo que estava tudo bem basearmos nossa sociedade numa dinâmica capitalista predadora. Nada de errado teria vivermos em paz mesmo sabendo que têm pessoas vivendo sem o que comer nesse mesmo sistema, afinal é a regra do jogo. Tanto que sequer nos desconcertamos quando afirmamos que elas realmente existem porém não tiveram “méritos” como nós. E que isso é normal. Nos ensinaram que essa é a natureza da vida, e como ir contra a natureza?

Aí viramos consumidores da vida e repetidores da dinâmica que nos foi apresentada desde sempre (se você a questiona, vira um chato), e não seres humanos com possibilidades maravilhosas de compreender, conviver, compartilhar, entrar em acordo, perdoar, relevar, suportar e ajudar.

Pouco desenvolvemos o nosso lado empático e continuamos não compreendendo as coisas sinistras que o “homem” é capaz de realizar. Nos transformamos em pessoas altamente individualistas tiradoras de selfies não por acaso. A incapacidade de enxergar e considerar o ponto de vista alheio é um sintoma gritante. A nossa história política recente comprova isso. Nem na ciência mais coletiva, como a política, deixamos nossos umbigos de lado da conversa. E ai de quem não concordar comigo.

Poucas pessoas nos ensinaram que não impor a nossa vontade sobre o outro não é fraqueza, que não nos defendermos de tudo que vai contra o que queremos não é sucumbir, que nem todo mundo é nosso concorrente, nem todo mundo cobiça o que temos.

Normalmente os que implicam com essa visão mais empática argumentam que ela é romântica demais. Ainda que seja difícil entender a conotação negativa de ser “romântica”, sigo optando por ela; ela tem rendido frutos de fato pouco comuns e compreendidos, e me parece que isso, nos dias atuais, é um bom sinal.

Por que preciso ir embora de vez em quando

A gente desde que se conheceu fala em morar um tempo fora do Brasil.

Desde 2012 diferentes cidades passaram pelos sonhos. No último ano, a vontade se intensificou com as respectivas crises nas carreiras, e foi apenas um mês antes de fazermos as malas que batemos o martelo quanto ao destino, logo após entrar num site pra comparar o custo de vida entre as cidades mais próximas dos nossos interesses e colocar no papel todas as nossas possibilidades.

Um mês depois dessa escolha, a vida estava reduzida a uma mala e meia. OK, umas coisas difíceis de desapegar deixei nas casas dos pais: nosso processador de sucos, meu vestido de noiva e minhas perucas de carnaval.

A reação das pessoas quando dizia que dali a alguns dias viríamos pra Londres foi diversa, às vezes de espanto por não entenderem como nossos projetos não incluíam ter a chave da casa própria ou um bebê.

No meio das reações todas, me fez pensar a da amiga que desabafou por WhatsApp que “não havia jeito, que eu era mesmo do mundo”, que era o que me fazia feliz e que então isso a faria feliz também, carinhosamente justificando a minha “perda”.

Ainda hoje continuo maturando essa concepção sobre mim mesma, sobre o por que gosto tanto de ir embora.

Sou fã da cidade de São Paulo – forço o sotaque pra não deixar dúvidas da minha origem, lá tenho uma porção de amigos que me querem bem, os momentos com a família-árabe-buscapé sempre foram o combustível da vida e, como não é surpresa, estava bem satisfeita com esses papos bolchevistas sobre ciclovia, faixa de ônibus e parklets invadindo a megalópole. Apesar de não estar fugindo de coisa alguma, existe algo em não estar em casa que me faz querer partir.

Daqui de longe consigo compreender que sair de “casa” é sair de mim mesma. E nada melhor que uma espiada de longe da “minha casa” pra conseguir me ver com mais clareza.

Conviver com pessoas que não falam minha língua, não entendem minha ironia, meu abraço repentino, minha ligação com a família, não se importam com o colégio que estudei, nem com o bairro em que morei. Novos olhares e novos desafios num mundo que não tem qualquer referência sobre mim.

Estar fora de mim mesma amplia meus horizontes e abre meu leque de oportunidades, não porque agora posso falar mais um idioma ou porque tenho reluzente no currículo a sexy experiência fora do país e então poderia com mais facilidade entrar numa big company. Mas porque estar longe de “casa” me possibilita ter mais acesso sobre mim mesma, sob a ajuda do foco de outras lentes, me faz enxergar diferente, sob outras perspectivas, me faz ver grande.

Percebendo que a minha realidade (que na minha concepção era a única) e a minha verdade (que era a mais justa) contrastam com milhões de novos olhares e percepções de vida, começo a reposicionar a minha existência e meus conceitos enraizados no meio disso, oportunidade que a realidade paulistana aos poucos vinha minando. A consequência inevitável dessa reorganização das coisas tem sido o fantástico processo de desumbigação a que tenho, de bom grado, me submetido paulatinamente.

Estar longe de casa é me ver pequenininha e de certa forma livre do vício que é me ver sempre sob os mesmos olhares. Consigo, enfim, me fazer outras críticas e perguntas. Como é importante se fazer novas perguntas! Quero passar a vida mudando as respostas e sempre lembrar que tagarelar incessantemente os mesmos conceitos não é ter personalidade, é ser refém deles.

Tem aqueles que não saem, e nunca sairão, mas surpreendentemente conseguem se desligar do seu próprio mundo pessoal. Desafiam a rotina, se misturam em guetos diferentes, fazem novos caminhos pra ir à padaria ou ao teatro e experimentam novas sensações que a cidade oferece, mas que às vezes a miopia causada pela irresistível dinâmica paulistana do se embolhar não estimula a ir buscar.

Tem quem sai da cidade, do país, mas nunca sairá do próprio mundo.

Esse é um grande receio, não conseguir desfrutar a beleza e a essencialidade que é, mesmo que de vez em quando, sair do meu mundo pessoal e ir visitar outras Stellas e novas possibilidades na vida. E talvez seja esse o significado de “ser do mundo”, dessa vontade enorme de sair, que às vezes os grandes amigos, atentos e carinhosos, me fazem descobrir.

Uma caipira paulistana arrasando em Londres

Eles dirigem do lado errado. Todo santo dia me surpreendo com alguém lendo o jornal enquanto dirige um caminhão a 40 kilometros por hora, até me dar conta que ele, no caso, é o passageiro.

Eles têm homens-manicure.

São irônicos. No metrô, não há placas dizendo pra você não correr, mas “alertando” que você não vai morrer se pegar o próximo trem.

A cidade te dá a sensação de que se pode sofrer um ataque terrorista a qualquer momento.

Em cada bairro da cidade deles há pelo menos um prédio de moradia popular. Seja em Hamsptead ou Notting Hill (Vila Nova Conceição ou Chácara Flora paulistanas). Veja, não é uma estação de metrô num bairro elegante. É um p-r-é-d-i-o c-o-m- g-e-n-t-e m-o-r-a-n-d-o. Que horror, não? Como será que o pessoal diferenciado consegue viver em paz com tantas ameaças iminentes?

O Metrô tem um correio elegante onde pessoas se deixam mensagens, que são publicadas no “Metrô News”. “Você, que estava na linha vermelha, às 11h, e desceu correndo na Estação Mile End, de vestido vermelho. Você é uma gata. Tem jeito? Ass.: Chinesinho de terno azul royal” É tipo isso.

Os velhinhos (80 anos idade média) poderiam estar em casa assistindo aos inúmeros programas de tragédia e miséria humana, mas estão todos nos pubs, bebendo suas pints e festejando a vida cozamigo aposentado.

Os professores das Universidades públicas defendem a entrada de imigrantes africanos no país. “Se eles conseguiram atravessar o mar, ultrapassar o canal da mancha escondidos dentro de um contêiner francês, eles são um sucesso e vão desempenhar qualquer função com motivação e determinação como poucos”.

Eles almoçam no parque e pra eles isso que é luxo. “Onde tenha sol, é pra lá que eu vou” é o lema oficial, apesar de – graças ao bom Deus – não conhecerem Jota Quest.

Aqui tem mulheres muçulmanas hispters. Nesta semana vi uma de burca + all star.

Na minha zona, tem 1 shopping e 78 parques.

Bicicleta é vida e não coisa de hispter pra eles. Prefeito anda de ônibus e pedala (“romântico e populista”). As vias da cidade tiveram as velocidades máximas limitadas, bem limitadas (20 km/h em algumas regiões). Pretende-se diminuir acidentes no asfalto e melhorar o fluxo. Indústria da multa? Sempre haverá uns poucos pouco iluminados, que veem intenção maliciosa em t-u-d-o.

Eles podem ser bem mal educados e estúpidos às vezes, mas nunca, jamais, vão entrar no vagão do metrô antes de você sair.

Eles misturam. No trem, ao meu lado direito uma mulher de burca completa, do lado esquerdo uma mina de micro-saia (gostosa não sente frio em qualquer parte do globo), na frente um indiano, no meio de cerca de outros vinte grupos étnicos, todos devidamente caracterizados, todos em apenas um vagão. Se fosse na minha cidade, pensaria que aquele era o bonde do carnaval, mas não, é Londres mesmo.

E eu que me considerava aberta, acostumada com multiculturas, com mistura de verdade, me achava uma pessoa sem preconceitos, sem medos e pensamentos provincianos, eu que me achava super liberal e cosmopolita. Tadinha. T-a-d-i-n-h-a.

Deixa, deixa

Deixa o cara rezar pra quem ele quiser em paz. Deus, Buda, Jesus Cristo, Alá, Maomé provavelmente estão com vergonha alheia de a humanidade ainda não ter aprendido lições básicas de amor e tolerância.

Deixa o outro dar pra quem ele quiser. Se ele sente prazer se relacionando com homem, mulher, ambos, isso é uma questão íntima dele, e não social da coletividade. Ah, mas está escrito na Bíblia que não pode. Ok, então cumpra a Bíblia, não se pegue com ninguém do mesmo sexo e seja feliz. Desenhai vos?

Deixa o apresentador entrevistar como e quem ele quiser, desejar a morte (a m-o-r-t-e) dele porque ele não está alinhado com o que você pensa mostra, na verdade, que mórbido é você.

Deixa os outros divergirem de você. Ser amigo de quem é afim é tranquilo, bonito é ter um bom amigo que te mostra novas possibilidades de pensamento e te tira da zona de conforto.

Deixa o “vagabunda” de fora do discurso frequente, proferir regularmente impropérios pessoais porque se diverge ideologicamente enfraquece as suas justas reivindicações e acaba dizendo muito a seu respeito.

Deixa o cara trabalhar com o que ele quiser e se ele quiser. Deixa de achar que porque ele é artista, então ele é drogado, porque não usa terno e gravata, então ele é menos bem sucedido, porque tem horários diferentes do “normal”, logo ele é vagabundo, não vai de carrão pro trabalho, logo é um coitado, frustrado. Isso é coisa da sua bisavó. Passe pra frente o que ela te ensinou de bom e deixe de lado aquilo que cabia apenas no mundo dela.

Deixa de achar que todo mundo que apoia ciclovias é simpatizante do PT, de esquerda, comunista. Pelamordedeus, get over it.

Deixe pessoas comemorarem e demonstrarem apoio ao casamento gay. Não é uma revolução colorir foto de perfil, mas é um alento e uma forma de demonstrar solidariedade nesses tempos de ódio e de um Congresso Brasileiro repleto de intolerância. Simplesmente deixe.

Eu esfaqueio, tu esfaqueias, eles esfaqueiam

Quando queremos, além de penalizar a pessoa que esfaqueou o médico na Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio, entender o contexto ao que ela foi submetida desde que nasceu, que tipo de vida teve, que influências recebeu, se pôde ir à escola, se teve família, se teve dignidade, absolutamente não significa justificar seus atos, e sim querer entender as origens da barbárie, justamente para buscar solucioná-las, extingui-las.

Ao buscar entender as origens de um problema, o que procura-se é, efetivamente – ainda que a longo prazo – tratá-lo e dizimá-lo. Parece super simples de entender: não se está a  defender o bandido (“leva pra casa”), como maliciosa ou ignorantemente se diz quando o posicionamento é de desfocar do produto final (penalizando-o) e concentrar nas causas dele (tratando-as).

É compreensível que, quando algo violento acontece, não consigamos acessar com facilidade a necessidade de entender a fundo um fato social, pois isso acarreta reconhecermos nossas falhas enquanto sociedade e nos colocarmos em uma perspectiva ativa: como responsáveis e não apenas como vítimas. Nossa primeira reação, humana e instintiva, é vingança, é penalizar, é acorrentar, é dar o troco, é diminuir a maioridade penal, e tantas outras coisas.

A história do menino que esfaqueou o médico na Lagoa é autoexplicativa, não há necessidade de maiores reflexões para que se entenda o porque a trajetória dele levou onde levou. E aí você vai me dizer, “mas isso não justifica o que ele fez”. Eu também acho que não justifica, o que não significa que estamos isentos de refletir e perceber a vigorosa relação entre o que ele se tornou e a vida de abandono, de total exclusão, de falta de dignidade, de amor, de educação, de cuidado, de perspectiva, de um Estado, presentes nesse caso e em tantos outros similares.

Esse contexto não pode levar alguém a algum lugar muito diferente. Mas estamos tão acostumados com a situação de exclusão e marginalização às quais pessoas estão submetidas, já é tão parte da nossa história, que acabamos perdendo a sensibilidade e a real percepção (se é que podemos ter uma real percepção de um mundo tão distante do nosso) dos impactos da falta de dignidade na vida de um indivíduo.

Ele é culpado, ele deve cumprir pena, ele é provavelmente um caso perdido, ele é um criminoso, mas ele é também produto da sociedade que cada um de nós constrói diariamente, sejamos nós trabalhadores de bem pagadores de impostos, sejamos nós políticos fazedores de política pública.

E qual o caminho que queremos seguir? Simplesmente penalizar e nos revoltar com o produto final, distribuindo ainda mais violência, ou também tentar olhar para a realidade por trás desse produto final, tentando entender com honestidade as causas dele, para então tentar efetivamente combatê-las, distribuindo mais justiça de fato, e não aquela que queremos ter ao nos posicionarmos como fatores externos e alheios ao que acontece diante dos nossos olhos.

Existe felicidade na segunda-feira

Hoje é segunda feira e a grande novidade é que eu tô radiante. Depois de vários anos, descobri que é possível ser feliz numa segunda feira.

Radiante porque domingo foi um dia prazeroso e o fim de tarde dele não me trouxe qualquer incômodo ou depressão por temor à santa rotina do dia seguinte.

Radiante porque acordei cedo e fui fazer o que me dá muito prazer. Com tranquilidade e sem afobação para sair e chegar no horário em algum lugar e começar a fazer aquilo que não faz o menor sentido pra mim por, com sorte, oito horas seguidas do meu dia.

Radiante porque pude cuidar da casa, mastigar trinta vezes o meu café da manhã, sem ter que sair tropeçando em tudo, deixando de focar no que eu estava fazendo e esquecer mil coisas depois de já ter saído de casa.

Radiante porque saí de casa no horário que rolou e meu coração não disparou quando vi ¨11h10¨ na tela do celular.

Radiante porque sou dona do meu tempo e eu tenho tanta coisa legal pra sugerir a ele, para fazermos juntinhos.

Radiante porque pude ir trabalhar a pé, de sapatinho baixo (de tênis ainda não tive culhões) e uma roupa confortável.

Radiante porque sentei aqui e comecei a fazer o que mais gosto de fazer.

Radiante porque posso, até que enfim, ser quem eu sou e doar (ou ao menos tentar) o que eu tenho de melhor.

Radiante porque não preciso atuar para parecer ser uma pessoa que eu não sou.

Radiante porque estou disponível para o que realmente interessa.

Radiante porque seguir o coração é uma opção e não há outra alternativa pra ser radiante que não dar ouvidos a ele.