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No balanço

Consegui contar 7 cidades, 6 países e ao menos 20 casas diferentes nos últimos 15 meses.

Tínhamos basicamente o mesmo propósito em todos os lugares em que passávamos – viver o momento, conhecer coisas e aguardar pela cidadania italiana. Era a hora de experimentar tudo o que em condições usuais dificilmente encontraríamos tempo, motivação, oportunidade.

Fazer cursos de verão e de curta duração (de política a empoderamento pessoal), viver como um local (menos monumentos, mais mercadinho de bairro), sair falando o idioma entoando o acento “pertinente” de cada lugar, pegar frilas de tradução e voluntariado com refugiados (afinal we are millennials), conhecer as iguarias locais (mucho gusto, angulas e tinto de verano), alugar apê pelo mês ou um quarto na casa de pessoas desconhecidas com quem dividíamos a máquina de lavar, banheiro, varal e jogos de tabuleiro.

Fazer crossfit e correr nos parques no meio da tarde, comprar vinho todas as noites, reencontrar e reforçar laços com antigos amigos que migraram antes da gente. Ficar íntimo da neve, da angústia, da depressão por ausência solar, do chèvre, do tiramissu, do molho piri piri. Assistir e acompanhar séries de domingo a domingo, aprender a costurar e a meditar.

Alguns aprendizados, a compreensão do que são sociedades mais avançadas e a desmistificação de que essas cidades são melhores que a minha. A clareza de que nós, brasileiros, temos sim uns bons degraus de déficit na evolução social (os europeus têm mais tempo de estrada como vantagem) – realmente nos falta tirar o umbigo do foco nos temas que concernem o interesse coletivo, o respeito e o gosto pela pluralidade e muita interpretação de texto.

Veio a necessidade de termos menos coisas para poder deslocar com mais facilidade. Bateu saudade do conforto da nossa casa em São Paulo, nossa intimidade, nossa rotina, nosso círculo protetor, nossa higiene, nosso colchão (old millennials têm ciático inflamado). Saudade arrebatadora de tomar banho descalça e em alguns momentos de morar num apartamento em que a cozinha, o quarto e a sala não disputavam o mesmo ambiente.

Por 15 meses, estabelecer era apenas um desejo que sabíamos estar longe e dependente de burocracias intercontinentais pouco transparentes e com muitos imbróglios ítalo brasileiros (desespero). As conexões e responsabilidades eram pontuais – não havia a mínima necessidade de envolvimento profundo com as coisas tampouco grandes planejamentos pois dali algumas semanas sempre íamos embora.

É setembro de 2016, cidadania basicamente em mãos, oferta de trabalho duradouro na capital espanhola, hora de viver o que damos o nome de “realidade”: rotina diária + planos de vida em Madri. Me encontro tentando entender o que significa criar raízes numa nova cidade – o que claramente desacostumei a fazer.

Ter o percurso certo de todas as manhãs, saber qual o dia da feira, ter as pessoas para as quais ligar quando tiver uma epifania ou simplesmente quando precisar tomar um tinto de verano no fim do dia, pedir talão de cheque para a gerente, ter um armário com mais de 3 calças jeans, ter um ferro de passar roupa (e passar roupa), achar normal assinar um contrato de aluguel com prazo indeterminado com cláusula prevendo multa em caso de descontinuação em menos de 24 meses.

Saber onde Jorge Drexler pedala todas as manhãs, conhecer e escrever neste blog sobre os hábitos e as idiossincrasias dos madrileños (se são do tipo que reclama da diminuição da velocidade das vias da cidade, da Gran Via aberta aos domingos, da “indústria da multa”…), dizer “vamos dar um pulo lá no Juanito?” (me referindo ao meu boteco preferido) numa terça despretensiosa depois do serviço, ter histórias pra relembrar quando passar na frente do Juanito, não hesitar quanto ao número de beijos dar ao cumprimentar os amigos, saber qual a época da ponkan.