Corporativismofobia

Vim com alguns defeitinhos de fábrica nessa encarnação. Nada grave. Um desvio de concentração ali, um sonambulismo acolá. Tudo fruto, creio eu, da minha condição de segunda geração da união entre primos irmãos. Muitos genes semelhantes, tudo misturado, segundo os boatos científicos que ouço por aí, pode dar erro.

E como se sabe, turco casa com turco, custe o que custar.

Entre uma enorme dificuldade de concentração para passar o bloqueador solar no rosto e uma viagem mental para outro planeta quando alguém me conta algo com muitos detalhes, há um outro tilt, que ainda não sei se é defeito, mas é incomum e gera desconforto: sofro do mal do corporativismofobia.

A luta é diária. Tento passar por cima dessa limitação, mas tudo é em vão.

A verdade é que tenho enorme dificuldade em lidar com as coisas do maravilhoso mundo da firma.

Almoço com a turma da firma. Os papos, que normalmente giram em torno de trabalho, são um troço difícil pra mim: pessoas do trabalho, um bafo do trabalho, um fato do trabalho ou a viagem da colega do trabalho que acabou de voltar de férias.

Normalmente a narrativa da perambulação da colega da firma é riquíssima em detalhes, não se poupa o colega-interlocutor nem da nuance da cor da parede de um dos dezesseis museus visitados, nem do sabor do sorvete tomado em frente à casinha em que o tio-avô da colega cresceu na cidadela da Italia. Isso quando ela não coloca o celular na frente da sua face para mostrar as 45 fotos tiradas da simpática casinha do tio-avô, enquanto você tenta cortar o filé mignon no seu prato.

E quando se trata de papo alheio ao trabalho, habitualmente (fatalmente) o assunto aborda pontos sensíveis, polêmicos. Dar o verdadeiro ponto de vista sobre o assunto? Complicado.

Dizer que você quer atropelar todos os ciclistas que cruzam seu caminho ou que você que foi o precursor da ideia de colocar tachinhas nas ciclovias da cidade? Falar que você não gosta de cachorro? Que compra calças na Zara? Que terminou um relacionamento por whatsapp? Que não arruma a própria cama? Que votou na Gilma?

Inclusive, todo dia do aniversário devia ser folga, por lei. Onde, Deus, enfiar a cara quando aparecem os colega-tudo super gentis com aquele bolo prestígio e com todo o departamento entoando o parabéns a você, com a maior alegria, como se fosse a coisa mais natural do mundo cantar parabéns a você pra mim.

Encantados pelo cheirinho do bolo prestígio, chegam junto até os demais departamentos – cujos integrantes nunca responderam a um mísero bom dia diário -, alegres e cheios de abraços para dar, congratulando-te.

Festa de fim de ano. Abraça o chefe, dá em cima da estagiária, não pára de comer porque é boca livre, gente casada se pegando, funcionários bebendo como se não houvesse próximo dia útil. Depressão.

Enfim, me desculpem o desabafo antipático e não me levem a mal. Não é nada pessoal com ninguém. O problema são esses defeitinhos – nada graves – de fábrica.

As minhas férias

Sair para almoçar de shorts curtinho sem o menor pudor em plena segunda feira. Receber olhares castradores que te fazem sentir como uma patricinha desmiolada carioca (quem anda de shortinho pelas ruas de São Paulo?).
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Passar o dia “trabalhando” com o papai (que está aproveitando muito essas férias alheias, esperando que eu nunca mais volte a trabalhar para ter sempre um escravo à sua disposição).
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Papai pedir que eu vá ao supermercado comprar farinha de trigo e fermento fleischmann. Dar o dinheiro e pedir o troco. “Volte com o troco, não compre balinhas”.
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Ir ao Crossfit às 12h, às 15h ou às 18h, de boas.
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Ir encontrar amigos para um chá da tarde com intuito de falar dos projetos e do nosso momento sabático atual (não estou só), de como estamos perdidos na vida e de como será a nossa futura vida charmosa e ciclística em Aix en Provence.
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Ir à exposição do Salvador Dali no meio da semana com azamiga e, em seguida, almoçar com elas no coração da Vila Madalena e tomar um suave sauvignon blanc sem o menor constrangimento.
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Me envolver ativamente em discussões sobre o sexo dos anjos no Facebook.
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Planejar viagens espirituais para me encontrar.
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Lavar mais louça, lavar mais roupa, tirar o lixo, lavar latinha de atum, separar o lixo, antecipar o serviço da casa para a diarista ter tempo para outras demandas da casa.
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Ter 10 ideias geniais por dia sobre como sobreviver apenas dos meus (inúmeros) talentos.
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Assistir diariamente ao por do sol e me emocionar.
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Ter todo o tempo do mundo e não conseguir fazer nada.
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Escrever um texto sobre as minhas férias.

memórias póstumas de uma coxinha

coxinha

eu era uma coxinha, admito.

uma coxinha preconceituosa e medrosa (se é que eu não estou sendo redundante).
tinha medo de gente. se alguém vinha me pedir uma informação, do nada, no meio da rua, eu achava muito estranho, disfarçava e corria dali.
tinha medo de andar de ônibus. pior, tinha preconceito de andar de ônibus. coisa de pobre.

achava que pobre era pobre por opção. o mercado era farto e a oportunidade sempre reluziu na mesma proporção para todos, sem exceção. pobre, pra mim, então, era tudo vagabundo mesmo.
se o bolsa família tivesse sido implementado na minha época de coxinha pura, certamente também ia chamá-lo de bolsa esmola.

mesmo raciocínio para presidiário. se tá lá, porque santo não é. se santo não é, bora tacar fogo em todos esses monstros. naquela época, eu não entendia o que era desigualdade social, falta de oportunidade, injustiça social, apesar de ter estudado em escola boa em São Paulo. e esses nunca foram temas de ordem do dia para uma coxinha moradora de zona nobre em São Paulo.

justiça social, pra mim, se resumia a ter dó e a fazer caridade. era o máximo que eu achava que podia fazer por quem não teve a mesma sorte (ou mérito) que eu.
se as cotas raciais tivessem aparecido na minha época de coxinha-creme pura, acharia um absurdo aquele tipo de preconceito às avessas. imagina, ajudar negros a entrarem na faculdade? isso seria uma afronta aos meus princípios cristãos e morais.

fazia parte de ser coxinha ser mei hipócrita. mas foi só eu me lembrar com quantos negros eu convivi durante o ensino médio, fundamental e faculdade, pra entender que havia mesmo (eureca) preconceito racial por aqui. logo, entendi a importância das medidas.

consumir era o meu nome. carro, meu sobrenome.
trabalhar com o que gostava, uma besteira, coisa de lunático.
manifestação popular, coisa de bugios revoltosos.
pensamento de esquerda, coisa de hippie, maconheiro ou hare krishna.

são muitas, muitas coxinhices vencidas.

hoje não me considero tanto mais uma coxa. to mais pra croquete de camarão, o que entendo ser um certo avanço em termos de sofisticação de pensamento, vaidosa que continuo a ser.

obrigado senhores deputados Covas e Capez

Durante todo o período eleitoral, os candidatos Bruno Covas e Fernando Capez se esbaldaram do uso do cavalete como forma de promover suas candidaturas.

Na região da avenidas Sumaré, Henrique Schaumann e Brasil eles preencheram as calçadas com seus obstáculos no caminho dos pedestres de Pinheiros.

Passadas as eleições, Covas e Capez – agora eleitos deputados, entre os mais votados do país – mantêm seus cavaletes nas ruas, emporcalhando a paisagem local.

Por isso, gostaríamos de agradecer aos deputados eleitos pelo legado que já nos deixaram.

As fotos abaixo foram tiradas em 11/out/2014, 6 dias após o primeiro turno. Na mesma região, ainda há sujeira de outros candidatos, de todos os outros partidos. Mas o caso da duplinha Covaz e Capes é tão gritante que merece ser homenageado.

Obrigado, deputados!

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já temos o vencedor dessas eleições

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Que Dilma ou Aécio que nada. Quem tá perdendo nessa disputa toda sou eu e meu estômago.

Que corrupção, que assistencialismo, que roubalheira, que nada. Quem ganha a disputa é a falta de compostura. Pessoas se escondem atrás dessas (dignas) bandeiras para, na verdade, soltar a franga e mostrar a que vieram.

Estou desesperada com a possibilidade de o meu candidato perder? Que nada. Desespero é com o nível dos trabalhadores e raladores de bem da minha timeline.

O que mais ficou claro nessa disputa eleitoral? Que planos de governo e propostas, que nada. O que ficou claro é que somos um bando de gente bem da mal criada.

Separamos pessoas em dois sacos e, dependendo do saco que você escolheu se enfiar, ouvirá diária e sistematicamente o mesmo tipo de discurso ofensivo.

O que aprendi? Aprendi a xingar, a xingar muito! A xingar tudo! A não tolerar absolutamente nada que não esteja alinhado comigo! Além de que pude relembrar alguns chavões e preconceitos já felizmente esquecidos.

Coxinha e petralha ganharam a disputa na minha timeline. Tudo certo, so far. É até fofinho ser chamado de coxinha.

Trabalhador-iluminado-ralador-paulistano, que andava adormecido, voltou com tudo e berrou aos quatro cantos da web, num verdadeiro cântico da classe sofrida.

A coisa ficou feia após o Nordeste ter maciçamente eleito a Dona Dilma. Nordestino-burro-que-não-sabe-votar foi o que de mais suave se escutou.

A elite paulistana foi apedrejada. Elite versus Pobres. Bem versus Mal. Li até gente tentando defender algum ponto político xingando candidato de corno. C-o-r-n-o. Esse é o argumento da classe bem educada e que sabe votar.

Esquerda caviar deu uma sumida. Ótimo, estou esperançosa que troquem por esquerda-creme-brulée. Tem mais a ver com meu momento. Tomara que não descubram que agora tenho um MacBook Air. Já pensou? Cairei em descrédito com minhas bandeiras.

#Terrorismo, #Assistencialismo e #SovietizaçãoDoBrasil.

Ameaças, homofobia, incitação à violência e zaz.

Intransigência e intolerância justamente da galera namastê, aquela que segue 78 páginas de Buda no Facebook e prega a paz o ano inteiro. Da tchurma adepta do “O Segredo” também. O que você dá ao mundo é o que você recebe. Pumba, acho que tem galera aí que vai colher uma enxurrada de cólera, pela regra do tal do Segredo.

Pessoas visivelmente iluminadas, praticantes de yoga e até os que fazem vinte-e-cinco pais-nossos toda vez que passam na frente da Igreja, não conseguiram manter o fervor cristão e desceram a lenha nos ensinamentos bíblicos, distribuindo ódio e falta de humanidade.

Não há nuances, não há conversa. E ainda se acredita piamente que haverá um lado vencedor. De qualquer forma, por aqui, ainda muito esperançosa com o futuro do Brasel.

vem-ni-mim, ciclovias!

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Ao que tudo indica, não sou nenhuma ‘abraça-árvore’, como ouvi essa semana de alguma mente brilhante por aí, que tentava desqualificar o interlocutor para fazer um ponto na discussão. Mesmo não sendo ‘abraça-árvore’ (nem nada muito próximo a essa qualificação), sou uma entusiasta das novas politicas públicas encabeçadas pelo Sr. Prefeito Fernando Haddad de implementar ciclovias e ciclofaixas cidade afora.

E digo isso mais porque acredito que a mistura, a convivência e o respeito são ingredientes de uma cidade mais humana e evoluída. O meu entusiasmo tem mais a ver com esses ingredientes (em escassez por aqui), do que com a solução para a mobilidade propriamente dita.

Talvez as recém instaladas ciclovias estejam mesmo atrapalhando muitos pontos comerciais ou tenham sido metidas goela abaixo na população (se dependêssemos de plebiscito para implementá-las, nem precisaria dizer que elas jamais estariam aí, certo?).

É natural – ou, ao menos, não é de outro mundo – que políticas públicas precisem de retoques ou adaptações, ainda mais em se tratando daquelas que trazem o novo, o não familiar, e impactam a rotina já há tempos estabelecida e “estruturada” do paulistano.

É igualmente natural que políticas que obrigam pessoas a readaptar a dinâmica do dia-a-dia ou mesmo a repensar alguns valores enraizados (ainda mais em se tratando do tema carro) tragam mesmo toda essa irresignação.

Mas a minha simpatia com relação a elas é justamente essa –  elas forçam a mudança no consagrado modos operandi da cidade e das pessoas.

Elas metem goela abaixo da população a necessidade de se prestar mais atenção ao redor, se ter mais cautela e respeito no trevoso trânsito de São Paulo. Repartir o espaço tem esse efeito.

Metem goela abaixo o imperativo de se discutir o uso que se faz do espaço público.

Metem goela abaixo a imprescindibilidade de se saber conviver com o que não é familiar e entender que não existe soberania nesse tal de convívio social.

Mas esses efeitos não são visualizados, nem contabilizados, tampouco valorizados pela maioria das pessoas, que prefere não partir para esse lado mais ‘abraça-árvore’ do assunto.

Querem mudanças crassas na cidade, mas de preferência que essas mudanças aconteçam sem se ter que mudar muita coisa.

Dividir, conviver, experimentar, se misturar. Não, deixo pra fazer todas essas coisas quando tirar férias e for me deliciar em Amsterdã. São Paulo não tem vocação pra ser Europa, não é plana.

somos todos pasteis (e coxinhas)

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1989.

Brincávamos de quebra-gelo com um cigarrinho de chocolate entre os lábios no meio da sala de casa. De relance, assistíamos ao Jaspion batendo nozinimigo, embalados pelos Gipsy Kings no som de madeira de 3 metros de altura recém adquirido pela família.

Tem tanta coisa dessa época que marcou a vida. Como começar o dia comendo melão com presunto cortado carinhosamente pelo meu pai, ganhar massagem dele nos pés antes de dormir, fazer guerra de coco de cavalo (estrume equino) com ele nas viagens para Conchas e, aos finais de semana, tocar a campainha das casas alheias e sair correndo pelas ruazinhas de trás da casa da minha avó.

(Sinto muito pelas crianças que nasceram depois dessa época e já não conseguem tocar a campainha – e em seguida, sair correndo – dos empreendimentos imobiliários que tomaram conta do bairro, seja pela falta de campainha, seja pelos seguranças com-cara-de-poucos-amigos que podem alvejá-las com uma bala de fogo pela tentativa precária de importunação à paz pública.)

Dessa época, além dessas influências que moldaram meu caráter (de menor infratora), me lembro de uma pessoa em especial. Era um querido e antigo amigo da família que sempre frequentava a nossa casa e que, não sei ao certo por que, me marcou. Talvez porque eu gostava muito dele (certa vez, me presenteou com um pogobol verde e roxo) ou talvez porque o sujeito era a antítese da minha família grega-buscapé. Esse cara era o tio Pastel.

Achava curioso que tio Pastel achava tudo muito perigoso. Tomar chuva, andar a pé, ir ao centro da cidade, andar de noite, pisar na areia, descer escada, pegar ônibus. Ir ao Rio de Janeiro então? Jamais, muito perigoso.

Lembro que tio Pastel era muito precavido e nada ficava sem planejamento na vida dele. Desde a ordem dos itens na geladeira até as viagens hermeticamente planejadas, sempre com um guia dos lugares turísticos onde-não-se-pode-deixar-de-ir ou que-todo-mundo-vai, a tiracolo.

Lenço, documento, mercado de trabalho e carros na garagem eram máximas basilares da vida de tio Pastel.

Tio Pastel sofria muito com o trânsito na cidade, que naquela época já apontava índices complicados devido ao crescimento frenético de automóveis, mas jamais parou para avaliar que o que fazia o trânsito piorar era justamente o número crescente de carros.

Um passeio a pé sem destino e sem propósito, uma viagem sozinho para um lugar que não estava nos Top 10 Destinos da revista semanal que assinava, ouvir a intuição e tocar a campainha das casas de desconhecidos eram coisas inimagináveis e sem o menor sentido para tio Pastel.

Munido de resposta pronta para quaisquer situações da vida, tio Pastel era um disseminador das unanimidades e se sentia muito aceito com isso. Os papos dele com meu pai, apesar de sempre afetuosos, chegavam a ser tragicômicos. Tio Pastel achava (ainda acha) meu pai muito louco. Onde-já-se-viu-fazer-guerra-de-estrume-com-as-crianças e não-colocá-las-na-escola-de-inglês-desde-os-cinco-anos-de-idade.

Titio Pastel reproduziu. Confeccionou uma linda e medrosa Coxinha. Nunca fomos melhores amigos de Coxinha (ela jamais nos emprestava seus baldinhos de areia em Paúba). Hoje em dia, Coxinha segue publicando nas redes sociais que as ciclovias e os corredores de ônibus na cidade são um verdadeiro absurdo e que São Paulo não é Amsterdã.

10 motivos para torcer pela Argentina na Final da Copa do Mundo

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10. Tabu continental
Nunca um time europeu ganhou uma Copa no continente americano. Seria legal que continuasse assim.

9. Hegemonia em Copas
Se a Alemanha vencer, chegará ao Tetra e poderá se igualar aos 5 títulos do Brasil já na próxima Copa. Se der Argentina, eles chegam ao Tri e ainda levarão um bom tempo até, quem sabe um dia, nos alcançar.

8. Lionel Messi
Esse gênio do futebol tem sua grande chance de ganhar uma Copa. Ele merece levar uma taça para, com isso, se tornar maior que se igualar a Maradona.

7. Que torcida!
Os argentinos vieram e torceram com toda energia e com suas canções bem elaboradas, provocativas e divertidas. Nesse quesito, deram um baile na torcida brasileira, cuja maior novidade para esta Copa foi o simplório verso “Maradona cheirador”.

6. Vingança
Se existe algum time que pode vingar de alguma forma a humilhação que o Brasil sofreu diante da Alemanha, esse time é a Argentina. Ou você acredita que o Brasil se redimirá contra a Holanda?

5. Somos todos latinoamericanos
Como disse Che Guevara, “somos uma única raça mestiça desde o México até o Estreito de Magalhães”. Nossas raízes são muito próximas para ficamos tão desconectados das nações vizinhas.

4. Mérito
Tirando o jogo contra o Brasil, a Alemanha não fez uma grande Copa do Mundo – quase perdeu pra Argélia, lembra?
OK, nesse aspecto, a Argentina também não brilhou, mas eles usaram a competição para corrigir as falhas do time. Chegam à Final bastante afinados e com 2 ou 3 craques que podem mostrar um verdadeiro futebol-arte diante dos gélidos alemães.

3. Arqui-rivalidade
Sabe aquela história de que o Batman não seria nada sem o Coringa? A rivalidade com a Argentina existe justamente porque eles são os vizinhos mais fortes que o Brasil encontrou para competir. Dessa vez não deu para nós, então uma vitória do arqui-rival seria uma motivação gigante para que nos preparemos melhor para os próximos Mundiais.

2. Argentinos são buena onda
Boa parte do nosso preconceito contra argentinos cai por terra quando vamos passar aquele feriado em Buenos Aires e somos super bem recebidos por lá. O argentino é um povo adorável – um pouco marrento, verdade – que admira muito o Brasil e nos vê como referência para muitas coisas além do futebol.

1. Futebol (ainda) é futebol
Uma vitória da Alemanha certamente virá acompanhada de associações ao seu magnífico desenvolvimento sócio-cultural e a seu poderio econômico. Se a Argentina ganhar, assistiremos a conquista de um país em eterna crise político-econômica e cheio de problemas como o Brasil. Isso mostrará que o futebol ainda é um esporte imprevisível, apaixonante e que não requer fórmula exata ou modelo perfeito para se ganhar.

sobre má-educação

Enquanto os japoneses vão voluntariamente limpando toda a sujeira deixada nos estádios, seguimos discursando, com ares de professores, redes sociais afora, sobre os modos e a boa educação dos torcedores brasileiros (elite, não elite, branca, preta, parda, coxinha, croquete, paulistana, carioca, recifense…) nos mesmos estádios.

A nossa boa educação é evidente, oras. Nem deveria ser colocada em discussão.

Frequentamos boas escolas, fazemos intercâmbio nos EUA, gerimos, com todo o mérito que nos é inerente, nosso próprio business e ainda não adquirimos educação suficiente para respeitar pessoas.

Aprendemos a falar 3 línguas aos 5 anos de idade, mas ainda não sabemos nos comunicar com quem pensa diferente e tem outras convicções.

Passamos nos vestibulares, nos impomos no mercado de trabalho, trabalhamos mais de 12 horas por dia, mas pouco somos estimulados a sermos dóceis na palavra, generosos com o mundo, honestos com as pessoas e justos nas relações.

A nossa boa educação não compreendeu ainda que isso sim pode mudar o mundo: a fusão de visões, a razoabilidade e o respeito pelo olhar do outro. E não o embate hermético e inflexível entre posições onde apenas uma delas tem méritos e a outra, defeitos.

Educados que somos, nos rebelamos contra a má educação, faltando com educação. Contra a má administração, humilhando. Contra a onda de violência, com mais violência. E quando insatisfeitos, agredimos.

Conhecemos 87% das capitais do mundo e os seus melhores restaurantes, museus e outlets, mas toleramos e não nos desconcertamos com a humilhação alheia.

O bem educado padrão Brasil fica inconformado com o que diz respeito a ele mesmo, ao seu patrimônio e à sua segurança. Manifestações populares serão sempre ruins para o seu dia-a-dia e a greve, sempre abusiva. Não entende muito bem adversidade, apesar de conhecer 87% das capitais do mundo com todas as suas alteridades.

Sua solidariedade, compaixão e senso cívico se limitam a ter dó e a dar esmolas.

Embora se considere bem educado, crítico e culto (lê um Best Seller por mês), não consegue entender a lição básica: educação começa de dentro pra fora. E não o contrário.

Um dia eu chego lá.

contos diários do ônibus rumo à Vila Leopoldina.

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Dia 1.

– Bom dia.
Bom dia do lado dele (e um sorriso).
– (percebendo a abertura) O Sr. passa ali perto da Rua Bauman?
– (voltando-se para o cobrador) Ô Cleber, passa perto dessa Bauman? Esse cobrador sabe tudo, moça. É um ‘XPS’…
– (…)
– Pague lá pra ele e volte aqui que você desce pela frente.
– Ok, obrigada! Esse ônibus passa com qual frequência?
– (hesitando) Ah, pra chegar lá na Bauman, quanto tempo leva?
– Não, tipo, esse ônibus passa com q-u-a-l frequência. De quanto em quanto tempo?
– Hum, ele passa com frequência sim. É só aguardar que ele passa, fica tranquila.
– Beleza, muito obrigada (já bastante satisfeita de ter batido um papo alegre com o motorista do onibus)

Dia 2, dia da greve do metrô.

– Boa noite.
– Boa noite, não tenho troco (olhando pra minha nota de dez reais). Aguarde aí que daqui a pouco arranjo. Onde você pára? No metrô?
– Não, um pouco além do metrô, na Heitor Penteado mesmo.
– Então tá tranquilo, moça. Sente e aguarde.
– Obrigada (me acomodando na frente dele).
– Será que churrasco de gente é bom? (me olhando sem qualquer sinal de que estaria brincando).
– (hesitante) Deve ser muito bom!

(Em instantes chegou o troco e voei pro fundo do veículo)

Dia 3, sexta-feira chuvosa.

(acomodação no fundo do ônibus – queda do meu guarda-chuva em um moço que se preparava para descer no próximo ponto).
– Me desculpe!
– Nada, imagina, moça.
(sorriso)
– Xi, me confundi, não era aqui que eu tinha que descer não! Achei que já estava no Pão de Açucar da Cerro Corá.
(sorriso)
– (sentando dois assentos do meu lado esquerdo) Olha, se não fosse você e o seu guarda-chuva eu teria descido no lugar errado. Tava brisando e achei que já tinha chegado ali na Cerro Corá, no ponto onde eu desço. É o cansaço do serviço.
– (me sentindo bem pelo feito e super-identificada com o momento de leseira alheio) Que bom então, ajudei você.
– Sim, olha, foi de Deus. Pois eu saí hoje de manhã de casa achando que não ia chover e não levei o guarda-chuva. Aí você deixa o guarda-chuva cair bem em mim agora. Só pode ser de Deus (falando com propriedade de alguém crente em sua fé).
– Poxa, e bem hoje que caiu um toró, hein?
– É sim. Quero chegar em casa logo, sabe, meu chuveiro tá sem água quente e eu tô doido pra chegar pra consertar. Tenho tomado banho na casa da vizinha e no trabalho. Eu moro ali naqueles predinhos da Cerro Corá, sabe?
– Hum, sei não. Tem muitos prédios na região, né?
– (sinal de concordância) É sim. Tchau moça.
– Tchau, bom final de semana.
(olhos de espanto das outras pessoas no ônibus)