Por que preciso ir embora de vez em quando

A gente desde que se conheceu fala em morar um tempo fora do Brasil.

Desde 2012 diferentes cidades passaram pelos sonhos. No último ano, a vontade se intensificou com as respectivas crises nas carreiras, e foi apenas um mês antes de fazermos as malas que batemos o martelo quanto ao destino, logo após entrar num site pra comparar o custo de vida entre as cidades mais próximas dos nossos interesses e colocar no papel todas as nossas possibilidades.

Um mês depois dessa escolha, a vida estava reduzida a uma mala e meia. OK, umas coisas difíceis de desapegar deixei nas casas dos pais: nosso processador de sucos, meu vestido de noiva e minhas perucas de carnaval.

A reação das pessoas quando dizia que dali a alguns dias viríamos pra Londres foi diversa, às vezes de espanto por não entenderem como nossos projetos não incluíam ter a chave da casa própria ou um bebê.

No meio das reações todas, me fez pensar a da amiga que desabafou por WhatsApp que “não havia jeito, que eu era mesmo do mundo”, que era o que me fazia feliz e que então isso a faria feliz também, carinhosamente justificando a minha “perda”.

Ainda hoje continuo maturando essa concepção sobre mim mesma, sobre o por que gosto tanto de ir embora.

Sou fã da cidade de São Paulo – forço o sotaque pra não deixar dúvidas da minha origem, lá tenho uma porção de amigos que me querem bem, os momentos com a família-árabe-buscapé sempre foram o combustível da vida e, como não é surpresa, estava bem satisfeita com esses papos bolchevistas sobre ciclovia, faixa de ônibus e parklets invadindo a megalópole. Apesar de não estar fugindo de coisa alguma, existe algo em não estar em casa que me faz querer partir.

Daqui de longe consigo compreender que sair de “casa” é sair de mim mesma. E nada melhor que uma espiada de longe da “minha casa” pra conseguir me ver com mais clareza.

Conviver com pessoas que não falam minha língua, não entendem minha ironia, meu abraço repentino, minha ligação com a família, não se importam com o colégio que estudei, nem com o bairro em que morei. Novos olhares e novos desafios num mundo que não tem qualquer referência sobre mim.

Estar fora de mim mesma amplia meus horizontes e abre meu leque de oportunidades, não porque agora posso falar mais um idioma ou porque tenho reluzente no currículo a sexy experiência fora do país e então poderia com mais facilidade entrar numa big company. Mas porque estar longe de “casa” me possibilita ter mais acesso sobre mim mesma, sob a ajuda do foco de outras lentes, me faz enxergar diferente, sob outras perspectivas, me faz ver grande.

Percebendo que a minha realidade (que na minha concepção era a única) e a minha verdade (que era a mais justa) contrastam com milhões de novos olhares e percepções de vida, começo a reposicionar a minha existência e meus conceitos enraizados no meio disso, oportunidade que a realidade paulistana aos poucos vinha minando. A consequência inevitável dessa reorganização das coisas tem sido o fantástico processo de desumbigação a que tenho, de bom grado, me submetido paulatinamente.

Estar longe de casa é me ver pequenininha e de certa forma livre do vício que é me ver sempre sob os mesmos olhares. Consigo, enfim, me fazer outras críticas e perguntas. Como é importante se fazer novas perguntas! Quero passar a vida mudando as respostas e sempre lembrar que tagarelar incessantemente os mesmos conceitos não é ter personalidade, é ser refém deles.

Tem aqueles que não saem, e nunca sairão, mas surpreendentemente conseguem se desligar do seu próprio mundo pessoal. Desafiam a rotina, se misturam em guetos diferentes, fazem novos caminhos pra ir à padaria ou ao teatro e experimentam novas sensações que a cidade oferece, mas que às vezes a miopia causada pela irresistível dinâmica paulistana do se embolhar não estimula a ir buscar.

Tem quem sai da cidade, do país, mas nunca sairá do próprio mundo.

Esse é um grande receio, não conseguir desfrutar a beleza e a essencialidade que é, mesmo que de vez em quando, sair do meu mundo pessoal e ir visitar outras Stellas e novas possibilidades na vida. E talvez seja esse o significado de “ser do mundo”, dessa vontade enorme de sair, que às vezes os grandes amigos, atentos e carinhosos, me fazem descobrir.