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Sou individualista mas tô na moda

Sem muita resistência, justificamos nossas opções de vida com base naquilo que nos contaram milhões de vezes desde que nascemos: o homem é naturalmente um ser competitivo e individualista. E com essa noção sobre nós mesmos vamos construindo o nosso universo.

Alguns dirão que eu quero consertar o mundo, mas não é exatamente consertar, pois questionar, vou explicar.

Seguimos sem conseguir compreender a estupidez e a desonestidade do ser humano, as crueldades que ele é capaz de praticar, a falta de entendimento entre povos, mas nossos comportamentos diários não são muito distantes dos de guerrilha: o que não nos soa familiar é uma ameaça, o mercado de trabalho é predador, nos escritórios e empresas somos automaticamente concorrentes, as escolas são lugar de bullying (com incentivo – ou não repressão – daqueles que são responsáveis pela nossa educação), no trânsito somos animais ferozes (como não perder a noção com o cretino que não deu seta pra entrar na nossa frente, né mesmo?).

Contratos são leoninos, não buscamos o real equilíbrio nas relações diárias (precisamos sempre de um bom advogado para captar as vantagens ocultas inseridas pela outra parte ou para usar de sua habilidade para fazer o mesmo por nós), o nosso sempre tem que levar mais vantagem (se não somos chamados de tontos).

O ex-namorado é automaticamente convertido num ser odiado e a ex do atual é obviamente uma vaca. Subverter essa lógica é, por vezes, vista com espanto. É um caminho irreversível – temos que ser rivais de quem quer que aparentemente, nas nossas cabeças, possa querer concorrer com o que é “nosso”.

Quantas vezes fui questionada sobre uma possível rivalidade entre a minha irmã e eu. Juro. Acham mais normal haver rivalidade do que parceria, tanto que se espantam com a cumplicidade que existe entre a gente.

Nos defendemos de ameaças criadas por nós mesmos, travamos batalhas desnecessárias com família e amigos, achamos que os outros morrem de inveja do que temos, achamos que a menina nova do trabalho quer tirar o que é nosso. Julgamos todos e tudo, afinal, “somos humanos”.

Temos medo de olho gordo (sempre do outro), escondemos o jogo por medo de roubarem o nosso lugar, não nos misturamos porque vemos constantemente maldade nos outros (não a toa os que estão sempre na defensiva evitando tais situações são justamente os que frequentemente as vivenciam).

Nem numa conversa sobre política praticamos política. Imagina o que não seríamos capazes de fazer numa disputa por um pedaço de terra.

Visões dissonantes de mundo, que poderiam ser inspiradoras para uma mente sã, mais que depressa viram alvos de ataque, pois é difícil suportar que o outro, tão diferente da gente, também pode acrescentar.

Aprendemos nas escolas a falar idiomas e a história de todas as batalhas mundiais, nos ensinaram a achar o x e a balancear átomos de carbono, mas seguimos não sabendo como nos relacionar com o humano – simplesmente a parte mais importante do paranauê todo.

“Esqueceram” de nos contar que o ser humano é também um ser empático que, além de individualista, é também capaz de fazer coisas extraordinárias um pelo outro. Um ser que também colabora, que tem condições de compreender o outro, de se colocar no lugar dele, antes de jogar uma bomba nele.

Nos confortaram dizendo que estava tudo bem basearmos nossa sociedade numa dinâmica capitalista predadora. Nada de errado teria vivermos em paz mesmo sabendo que têm pessoas vivendo sem o que comer nesse mesmo sistema, afinal é a regra do jogo. Tanto que sequer nos desconcertamos quando afirmamos que elas realmente existem porém não tiveram “méritos” como nós. E que isso é normal. Nos ensinaram que essa é a natureza da vida, e como ir contra a natureza?

Aí viramos consumidores da vida e repetidores da dinâmica que nos foi apresentada desde sempre (se você a questiona, vira um chato), e não seres humanos com possibilidades maravilhosas de compreender, conviver, compartilhar, entrar em acordo, perdoar, relevar, suportar e ajudar.

Pouco desenvolvemos o nosso lado empático e continuamos não compreendendo as coisas sinistras que o “homem” é capaz de realizar. Nos transformamos em pessoas altamente individualistas tiradoras de selfies não por acaso. A incapacidade de enxergar e considerar o ponto de vista alheio é um sintoma gritante. A nossa história política recente comprova isso. Nem na ciência mais coletiva, como a política, deixamos nossos umbigos de lado da conversa. E ai de quem não concordar comigo.

Poucas pessoas nos ensinaram que não impor a nossa vontade sobre o outro não é fraqueza, que não nos defendermos de tudo que vai contra o que queremos não é sucumbir, que nem todo mundo é nosso concorrente, nem todo mundo cobiça o que temos.

Normalmente os que implicam com essa visão mais empática argumentam que ela é romântica demais. Ainda que seja difícil entender a conotação negativa de ser “romântica”, sigo optando por ela; ela tem rendido frutos de fato pouco comuns e compreendidos, e me parece que isso, nos dias atuais, é um bom sinal.