l’auberge français


Todos os nomes reais desta postagem foram trocados a fim de que a imagem de cada qual fosse preservada.
                                                      
Quando vim morar na França eu queria mesmo era morar com outros nativos.
Motivos muito simples: idioma, imersão na cultura, constante intercâmbio, aprendizado, a experiência se torna certamente mais rica e também porque eu gosto de sofrer, me colocando à prova de certas coisas.

A busca não foi fácil, quase desisti diversas vezes, mas acabei persistindo e os dissabores, a espera, as dificuldades acabaram valendo tudo.

Logo que cheguei já tinha uma opção na mão. Uma casa com três franceses. A descrição da casa era incrivel! E o que me “pegou” de jeito: adoravam comida “bio” (orgânica) e havia um pé de figo no jardim da casa!

Imagina? Eu, os figos, a França! Parecia perfeito.

Não deu certo. A pessoa que vos fala, ao visitar a casa (durante uma festa), ao invés de visitar o banheiro, a cozinha, as coisas realmente importantes, tratou mesmo é de ir direto para o “bar” e fazer o social com as pessoas.

Dois dias após a referida festa la estava eu, já instalada. Porém, não consegui ficar mais que quarenta e oito horas na casa. Acho que dá pra imaginar o motivo!

Sai correndo de lá, não podia passar nem mais dez minutos naquele lugar. Arrumei minhas coisas e fui pro hotelzinho do lado.


Então, arranjei um apartamento ótimo, pra dividir com o Pierre! Pierre, trabalhava com satélites artificiais, quase dois metros de altura, no segundo dia que eu estava la ele diz que tinha algo pra me contar.

“Deus, ajude”, pensei eu. “Eu sou cantor, eu canto rap”. E ja sacou um CD e me deu. “Um presente pra você!” E ouvi o CD todo…. de rap, francês.

Acontecia um certo problema com o Pierre, à despeito do fato de que realmente nos dávamos muito bem: imagina um francês, aprendendo português, que vai para o Brasil morar com o Marcelo D2 e com o Mano Brown. Inviável. Por outro lado, aprendi muitas girias do mundo rapper.

Ele continua um grande amigo, acabei ficando por la apenas um mês, pois havia me livrado da sujeira da outra casa, mas ainda não tinha conseguido o que realmente desejava: viver com três ou quatro franceses numa casa, os quais tivessem minimamente a ver comigo, com os quais eu pudesse compartilhar o dia a dia.

Resolvi partir, novamente.


Fui para um apartamento, aonde iria passar o tempo necessário até achar algo definitivo. A proprietária, contudo, me disse que por quinze dias eu teria que dividi-lo com mais uma pessoa, coincidentemente, com uma brasileira. Tudo bem, tudo bem, por quinze dias, naquelas alturas? Fácil!

Foi aí que conheci uma peça de outro mundo: Giovana, brasiliense, geóloga, doida, doida, doida – mas, como já diria Chafi Abduch “gambá cheira gambá”, não é mesmo?


O grande receio da Giovana, antes de me conhecer, era se ela iria poder fumar as coisas dela lá, morando comigo.

No nosso primeiro encontro, ela, cheia de pudores e pisando em ovos pra abordar o tema comigo, de repente, lançou sua preocupação e se abriu. 

No fim, ela ja estava fumando dentro do quarto. Os poucos dias que passamos juntas foram incríveis e eu com certeza, assim, do nada, ganhei uma amigona.
Ela voltou pro Brasil e eu conheci a minha nova casa, na qual moro há quase dois meses, da qual escrevo neste momento e na qual eu me estabeleci e pretendo ficar definitivamente.
                                                                                                                                                                                             
Nestas idas e vindas conheci bastante gente, “aves das mais diferentes plumagens”: excêntricos, fotógrafos, ativistas, advogados, geólogos…

Se eu fosse pela cabeça de muitas pessoas jamais teria insistido na “colocation”² aqui na França. Ouvi várias coisas pelo caminho. Que os franceses eram pessoas muito dificeis de se conviver, que eram emocionalmente instáveis, além, é claro, do probleminha (real) da maioria das casas: falta de higiene.

Neste meio tempo, assisti um filme (acima) que uma amiga (Burin) – que ja tinha vindo morar um ano na Espanha, havia assistido (em 2007!) e me indicado: “Albergue Espanhol”. Três anos depois, eu resolvi assistir justamente nessa época de confusão e quase desistência. 

O filme retrata direitinho o que é viver em “colocation”. Incrível! No final, ja não restava qualquer dúvida do que eu realmente queria.

Bem, o importante é dizer que finalmente encontrei o meu lugar! A minha casa “é a casa mais legal de toda Toulouse”! E os meus “colocataires” são praticamente meus irmãos. Não poderia estar em lugar melhor.

 Os cinco dividem um banheiro, as compras do mês, o sabão em pó, as roupas íntimas penduradas no varal, as contas, as refeições, os afazeres domésticos, os “soirées”²², os filmes de domingo à noite, jogos e tudo mais. 


Quase todo dia me pedem pra ensinar uma frase em português, mas é bem difícil pra eles entenderem que o “L” tem som de “U” e falar “Brasil” é tarefa impossivel.

E eles também dão muita risada dos meus tropeços no francês, me corrigem, me ensinam e me encorajam. Os momentos que passamos juntos são muito bons e neste instante me passou pela cabeça que vai ser muito dificil ir embora daqui, um dia.


Certamente, vou levar pra vida toda tudo o que tenho vivido por aqui.

Agradecimento especial à Bebel, a qual, gentilmente, cedeu os acentos que faltam no meu teclado francês, a fim de que eu pudesse acentuar algumas palavras.
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²La colocation est le fait de réaliser une location en commun.
²²festa ou recepção noturna.

conexão londres – bordeaux


A ilustração acima tem a ver com a viagem de aniversario da Rafa²:

Tal pessoa resolveu, com todo seu charme londrino, baixar pras bandas de ca pra passar o seu aniversario no ultimo dia 24 de novembro. E o destino escolhido foi Bordeaux/França, ha 2 horas de trem de Toulouse.

A ilustração acima representa, ou tenta representar, todo o itinerario realizado.

E como é bom encontrar um amigo! Mais do que poder falar portugues, é poder falar a nossa lingua, falar bobagem à vontade, e ser ouvida e “vista” sob um olhar familiar, um olhar que te conhece nas suas minucias mais ínfimas.

Quando vi a Rafa chegando perto da gare foi como se sentisse a minha familia se aproximando. Engraçada essa sensacão. Um mix de conforto com segurança com felicidade com vontade de pular em cima dela ali mesmo, no meio de toda aquela gente comportada.

Parece não fazer muito sentido quando estamos no nosso “habitat natural”, mas foi um sentimento imensuravel, o qual eu não tinha sentido antes. Importante esse negocio de ter raizes, de ter por perto pessoas que te conhecem, de ter familia, de ter base, referencia.

Nada poderia ser ruim ou dar errado com este sentimento bom e com essa energia no ar. Mas pra ajudar, veio a parte da viagem em si. Bordeaux é um destino imprescindivel pra quem vem pra França. Linda de morrer, cheia de historia, charmosa e agitadérrima.

Estou me surpreendendo com esses franceses. Plena terça feira, frio de bater os dentes e todo mundo na balada. E eu achando que iria “estranhar” por São Paulo ser tão unica no que diz respeito ao agito. Nada, rien! Essa galera é mais “in danger”²² que a gente!

Viagem perfeita, lugar delicioso, muitas historias, encontros, desencontros, “hot chip”, risadas, dangeragem, vinho, vinho, vinho, fromage, fromage, fromage, bistros, filosofia (de boteco), frio e até bolo de aniversario improvisado!

Inesquecível.
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²Rafaela Castillo, Amiga com A maiusculo, brasileira, solteira, publicitaria, domiciliada em São Paulo, Brasil, residente em Londres, UK, é a minha referencia de familia aqui pelo Velho Mundo.
²²giria criada para denotar uma pessoa que esta “à perigo”; mas a expressão ganhou tamanha força, expandiu fronteiras, e hoje em dia expressa mais a atitude dos bagunceiros em geral.

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La Valse d’Amelie



Esse filme é uma arte. Tudo, tudinho nele. A trilha sonora então, um absurdo.
E eu tenho que confessar que me sinto um pouco assim por aqui, dançando a “Valse d’Amelie”.
Quando ando pelas ruas e me deparo com algum músico tocando accordeon em alguma esquina, quando ando de bicicleta e vejo a cidade amanhecendo, quando sento num café e observo as pessoas comendo suas baguetes, lendo seus jornais, “bufando”, com suas boinas, muitas com seus cabelos charmosamente despenteados, elegantes, com aquele tipico ar romântico, intelectual, blasé… cliches, cliches, cliches, e tudo verdade! 
E quando o Gab toca a Valse d’Amelie no piano então? Eu quase morro!
A vida por aqui é muito intensa, em todos os pequenos momentos, numa simples caminhada pela cidade, num jantar entre amigos, num amanhacer com neve, sinto um “negocio” especial. Como se eu estivesse vivendo mesmo no mundo de Amelie, aonde houvesse mesmo uma carga ludica em every little thing…
É justamente esta a magia que me fez escolher a França pra morar. Um negocio inigualavel, um clima constante de beleza, de prazeres, de intensidade, de vida. Só estando aqui mesmo pra entender tudo isso.
É assim que eu tenho visto o mundo ultimamente.
Vive la France! 

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